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| João Formosinho diz que devido aos diferentes ritmos e origens sociais dos alunos, o sistema actual tornou-se “selectivo” e poderá levar ainda mais ao insucesso escolar |
O actual sistema não resolve o problema da aprendizagem
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João Formosinho, professor catedrático do Departamento de Ciências da Educação da Criança do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, explica que o sistema de ensino actual não resolve o problema da aprendizagem em Portugal.
Em entrevista cedida ao JM, este doutorado em Administração Escolar pelo Instituto de Educação da Universidade de Londres e Mestre em Currículo pela Universidade do Texas (EUA), defende que o sistema não resolve o problema da aprendizagem em Portugal porque é um sistema «puramente selectivo», onde a selecção de uma escola, que é obrigatória, «tem complexidades, porque não se pode obrigar os alunos a estar numa escola que está criada para o seu insucesso. No caso concreto, alunos que vêm de ambientes mais privados sentem-se muitas vezes obrigados a estar numa escola e orientados para o seu insucesso. A solução – adianta – não há, mas terá de haver «um equilíbrio».
Desafiado a comentar o estudo da autoria da Organização Mundial de Saúde que revela que os jovens portugueses de 15 anos são os que sentem maior pressão com o trabalho escolar num conjunto de 41 países analisados, João Formosinho diz que obrigar os alunos a estar na escola até ao 12.º anos vai gerar «mais tensões, quer entre docentes, quer entre os próprios alunos».
A este respeito, o investigador recordou a altura em que havia reprovações anuais, no 7.º, 8.º e 9.º ano de escolaridade e de vários estudos que foram feitos sobre este assunto terem demonstrado que os alunos que reprovam, quando são repetentes nem sempre têm por isso melhor sucesso.
O professor catedrático assegura que obrigar todos os alunos a estar na escola até ao 12.º anos vai gerar mais tensões, quer entre docentes, quer entre os próprios alunos.
«O sistema de avaliação dos alunos vai oscilar sempre duas grandes tensões: uma que é a intenção dos professores de avaliar o progresso dos alunos – num sistema tão abrangente, numa “escola para todos” os ritmos são tão abrangentes que se deve valorizar os progressos que cada um tem mesmo que tenha partido muito detrás em relação aos restantes colegas – e uma outra tensão que tem a ver com as ambições da sociedade e dos pais que querem saber o que os filhos valem e para isso terá de haver exames selectivos e rigorosos porque eles vão encontrar no mercado de trabalho essa selectividade», justifica.
Na sua opinião nunca haverá uma única solução porque a escola tem obrigatoriamente que atender a estas duas realidades. «Não podemos viver num oásis à parte em que todos nós somos iguais e carinhosos uns com uns outros porque sabemos que a sociedade não é assim», revela o professor catedrático.
Crise da Educação tem a ver com a massificação da escola
Em comparação com outros países da Europa, a situação do ensino em Portugal não é assim tão diferente. «A crise na Educação fala-se também em Espanha, França e em toda a União Europeia», frisou o especialista em Educação, adiantando que «a grande crise da educação tem a ver com a massificação da escola. Isto é, a “escola para todos” veio trazer para dentro da escola problemas sociais que até então não existiam. Ora, a escola ao ter muitos jovens que têm menos motivações para estar na escola ou cuja ambiência familiar não é tão favorável, faz com que a escola se depare com muitas populações que têm menos apetência para o estudo e motivação para o estudo. Mas, ao mesmo tempo que isto ocorre, acontece num momento em que a sociedade é cada vez mais exigente, em que há selecção cada vez maior para os empregos, em que a classe média percebe que os seus filhos se querem ter sucesso na vida têm de começar a ter sucesso na escola e não basta já serem bons, têm de ser simplesmente os melhores, por exemplo que quiserem seguir medicina. E são duas tensões muito contraditórias nas vidas das escolas», afirma o especialista.
Ainda sobre este assunto, João Formosinho recorda que «ainda há pouco tempo ouvi um director de um jornal influente dizer que se calhar as escolas públicas têm crianças com necessidades educativas a mais porque tirava tempo aos professores para ensinarem os alunos que querem aprender. Ora, isto significa que há um certo desconforto da classe média com esta abrangência da escola de massas. Contudo, por outro lado, também as famílias que vêm da classe média-baixa sentem um desconforto porque pensavam que as escolas eram uma forma de mobilidade social e acabam por ver que na verdade não é bem assim. As razões de descontentamento de uns e outros são diferentes. Isto traz uma grande pressão às escolas, aos directores, às próprias direcções regionais, aos ministérios e aos governos», assegura o catedrático.
A escola tem de encontrar novos modelos
João Formosinho defende que a escola, enquanto instituição, tem de encontrar novos modelos. Explica que as escolas organizam-se muito em torno de «uma burocracia, em turmas homogéneas, na divisão dos alunos por turmas e por isso terá de encontrar novos modelos de organização pedagógica».
«Eu defendo a ideia das equipas educativas e que a turma não é o melhor instrumento de atender a estes alunos todos. Em breve vou editar um livro com o meu colega Joaquim Machado sobre equipas educativas que defende que, se as escolas se organizarem em grupos maiores que abranjam cinco turmas, conseguem mais facilmente ter uma dimensão maior para gerir essa heterogeneidade».
O investigador refere que a existência de muitos cargos surgem nessa tentativa de adaptação na escola. «Eu acho que, além dos cargos terá que ir mais longe e alterar a sua organização pedagógica. Hoje existem turmas, professores distribuídos às turmas e as aulas têm uma unidade horária fixa. Eu penso que este modelo não funciona muito bem para a heterogeneidade de motivações e de ambientes familiares dos alunos. E este problema que tem de ser superado».
Pela experiência que orientou durante anos, «eu acho que grupos maiores de alunos (com 100 a 150 alunos) distribuídos efectivamente pelas turmas vão permitir que exista uma gestão muito maior do tempo mais equilibrada, que permitirá que a distribuição do serviço docente seja feita de forma a que haja professores que possam atender os alunos com mais necessidades e permitindo a gestão curricular mais integrada».
No seu entender, há momentos em que é preciso que os alunos tenham noção do colectivo e há momentos em que um grupo pequeno vai captar melhor o assunto que está a ser abordado. Se os professores concordariam ou não com esta flexibilização, João Formosinho é da opinião de que aquilo que mudaria seria apenas a passagem do trabalho individual para o trabalho em equipa.
De acordo com este responsável, esta é a maneira da escola adaptar a sua organização pedagógica à realidade da escola de massas que se torna numa escola para todos.
Estabelecimentos devem ter papel mais activo
A escola deve ter um papel mais activo na selecção dos professores. João Formosinho diz que é importante que haja uma por isso uma maior participação da comunidade educativa. Como neste assunto nada é linear, é preciso uma maior abertura da escola à comunidade educativa para detectar casos de professores que se desviam ou que não têm vocação.
Sobre a avaliação da carreira docente, Formosinho explica que «não é possível que tenha efeito nos professores sem que ela seja uma avaliação legitimada e de facto todo o processo que ocorreu não é um processo legitimado pelos professores. A grande questão é que a parte substantiva do seu desempenho que passa pela relação com os alunos é muito difícil de avaliar. E o modelo que foi escolhido é baseado na avaliação do desempenho administrativo. Nós estamos numa situação em que a Educação tem uma tecnologia incerta, objectivos discutíveis e um desempenho dos professores que é em grande parte invisível e difícil. Portanto, avaliar o desempenho substantivo dos professores não é fácil e é por isso que grande parte dos processos como este acabam por resultar em avaliações meramente burocráticas que não são muito úteis como é a assiduidade e a participação. |
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