Jornal da Madeira
 
Quinta-Feira, 9 de Setembro de 2010
Jornal da Madeira Carta ao Director Jornal da Madeira
 
 

 

 

Jornal da Madeira / Região / 2010-08-01
Luís Miguel Correia aprova retomar da ligação, mas avisa
Nada de deslumbres
Ainda não há datas, mas o anúncio da Naviera Armas, de que pretende reactivar as ligações marítimas entre o Funchal e Lisboa, agrada a muita gente. É o caso de Luís Miguel Correia, um entusiasta pelos navios e autor de um dos livros que melhor aprofundou a história da Marinha mercante portuguesa dos últimos 100 anos.
Em declarações ao JM, o nosso interlocutor começa por lembrar que, na Madeira, «a empresa espanhola veio mesmo a encontrar um nicho de mercado descurado nos últimos 35 anos pelas empresas de navegação portuguesas e pelos poderes políticos instituídos numa lógica de desmaritimização efectiva que se iniciou em 1975 com a nacionalização irresponsável dos sectores chave da economia e afectou muito a indústria de transportes marítimos. Em Portugal criou-se a ideia falsa de que viajar por mar entre a Madeira e o Continente era um arcaísmo do passado. Foi um erro estratégico», diz Luís Miguel Correia.
Com a última viagem regular do paquete “Funchal” à Madeira em Outubro de 1975 (ver historial das ligações nas páginas seguintes), «terminou o serviço de passageiros Lisboa - Funchal instituído em Janeiro de 1875 pela antiga Empresa Insulana de Navegação e o arquipélago da Madeira passou a ser, a par com os Açores, a única Região insular do espaço europeu sem ligações marítimas para passageiros com o Continente», prosseguiu. Desta forma, acrescenta, contrariou-se, «muito por ignorância e incúria dos responsáveis políticos e dos operadores», a tendência de modernização e generalização do transporte marítimo de curta e média distância com navios de passageiros e carga Ro-Ro que se verificou por toda a Europa a partir da década de 1960.
Apesar de ter conseguido «gerar simpatias por parte do público», criando em pouco tempo condições para explorar um nicho de mercado «interessante», prolongando as viagens das Canárias à Madeira até ao Algarve, Luís Miguel destaca que o Armas conseguiu apostar em mais um destino, «graças à dimensão da empresa e capacidade económica e comercial muito superior à que caracteriza os operadores portugueses de transporte marítimo, com menor capacidade de internacionalização, os quais apostaram sempre no transporte da carga com navios porta-contentores».
Porém, sublinha que «a tendência natural para nos deslumbrarmos com os estrangeiros é um sintoma de atraso cultural e uma ilusão», e sublinha que a história sempre demonstrou que, «em situação de ruptura de equilíbrios políticos ou em caso de conflito internacional, os estrangeiros desaparecem e só poderemos contar com meios próprios, isto se os tivermos».
O nosso interlocutor vai mais longe e refere que «o que não pode ser esquecido nunca pelos madeirenses é a sua condição de ilhéus e a dependência física de transportes marítimos e aéreos para ligar as ilhas ao Continente. Essa condição é de natureza estratégica da maior importância e nessa perspectiva não se pode entregar a estrangeiros em exclusivo o ónus dessa ligação».
«Temos de ter meios próprios e isso significa navios portugueses, armadores portugueses e uma consciência das nossas obrigações e necessidades. Hoje, por exemplo, não existe um único navio português com capacidade para abastecer de combustíveis a Região e essa situação que não parece preocupar ninguém pode ter consequências dramáticas mais cedo ou mais tarde. Nada de deslumbres com o altruísmo de operadores estrangeiros, vejamos o seu interesse numa perspectiva de mercados abertos e oxalá essas iniciativas sirvam para inspirar outras de empresários madeirenses», conclui.

Ivo chegou a trazer Fiat por 800 escudos

Ivo e Helena Fernandes são apenas um entre os muitos casais madeirenses que, de há cerca de 40 anos a esta parte, ainda fazem do barco o seu meio de transporte preferencial entre o Funchal e o continente. «Já fiz mais de 300 viagens de avião, mas prefiro o barco a 100 por cento», garante. Por isso, assumem que é com alegria que souberam do interesse da Naviera Armas em retomar as ligações entre os dois pontos. «Desde que seja progresso para a minha terra e para todos os madeirenses, concordo com tudo o que vier de bom. Há muita gente que não gosta mesmo de andar de avião e terá, assim, a possibilidade de ir a Lisboa, a Canárias ou Portimão de barco», refere Ivo Fernandes, que já teve a oportunidade de matar as saudades das viagens, deslocando-se até Portimão.
«Nesse tempo, as viagens compravam-se na Empresa de Navegação Madeirense, à Rua da Praia, no Funchal, e custavam 120 escudos. As ligações aconteciam ao sábado à tarde e chegávamos no domingo a Lisboa», contou Ivo Fernandes. «Por vezes, íamos por Vigo e chegávamos segunda de manhã», complementa Helena Fernandes.
«Chegou a passar para segunda-feira e chegávamos na terça à tarde. Por acaso, era uma viagem muito boa», recorda o nosso interlocutor, que chegou a perder a conta às viagens que fez, sobretudo no navio “Funchal”. «Tinha piscina e tudo. Já era um navio com uma certa e determinada higiene, um conforto que nos fazia sentir muito bem», prossegue. As viagens eram «extraordinárias», com ping-pong, bingo e muitas outras actividades a bordo «Era uma boa confraternização», continua.
Mas, houve outros barcos. «Cheguei a utilizar o “Carvalho Araújo”, o “Santa Maria” e também ainda chegamos a andar no “Infante Dom Henrique”, assim como no “Angra do Heroísmo”», conta.
A viagem tinha um preço acessível aos madeirenses e, para quem quisesse, havia ainda a possibilidade de transportar veículos entre Lisboa e Madeira. Ivo Fernandes chegou a ter um stand de veículos, e recorreu muitas vezes aos serviços do paquete “Funchal” para transportar viaturas. «Pagava 800 escudos para trazer um Fiat 600. Já era dinheiro», sublinha.
Ivo Fernandes diz que foram muitos os episódios com que ficou destas viagens, mas refere que há uma que nunca esquecerá. «À saída da barra do Tejo para a Madeira, o barco ia voltando. Lembro-me de as garrafas e os pratos caírem para o chão. Julgávamos que íamos desta para melhor», diz Ivo Fernandes que, no entanto, salvaguarda que as viagens eram sempre calmas.
Ivo e Helena só esperam é que as viagens continuem a ser acessíveis, como actualmente. «A Madeira só ficou a ganhar com a vinda do Armas. Aliás, tenho a impressão que o Governo já não tem que se preocupar com apoios às viagens, pois são baratas e o Governo já paga muita coisa», conclui.
 

 

 

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