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| Quem vive no Espigão de Cima diz que, agora, a recatada localidade é um paraíso |
800 «dolorosos» degraus isolam Espigão de Baixo
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Dez e meia da manhã. Espigão. A aragem gelada contrasta com o calor e humidade sentidos, meia hora antes, no Funchal. Agostinha Ramos encontra-se num pequeno poio à beira da estrada onde apanha espigos para deitar na sopa que vai cozinhar para o almoço.
Ao JM, e quando questionada sobre como se vive naquela recatada zona da Ribeira Brava, Agostinha Ramos responde que «quem não ganha, não come. Quem tiver dinheiro, vive como as gentes das cidades». Esta senhora, que viu o marido ser morto à porta de casa, perdeu a força de viver. Ainda assim e porque «o senhor doutor disse para ir andando na fazenda para não ficar paralisada», lá faz um esforço e, todas as manhãs, dá «uma fugida para apanhar qualquer coisa para comer». Ao supermercado, quase nunca vai. O pão passa à porta de casa e o leite «é comprado numa vendinha mesmo aqui ao canto de baixo». O resto, como verduras para a sopa, «tiro-as da fazenda». De vez em quando «merco uma pitada de carne ou de peixe mas isso só quando vou à Ribeira Brava».
Agostinha Ramos diz que já foi muito mais difícil viver nesta zona da Ribeira Brava, onde só há poucos anos, «chegou o alcatrão».
Adiante, já no local onde a estrada principal acaba e foram criados, recentemente, dois acessos estreitos para algumas residências da zona, fomos encontrar um senhor à porta da mercearia da zona. Não é proprietário do estabelecimento mas está a deitar a mão enquanto a dona, Serafina Freitas, foi «resolver umas coisas à Ribeira Brava». Este senhor, que recusa a identificar-se, diz-nos que vive no Espigão de Baixo. Para lá chegar, tem de descer 800 «dolorosos» degraus. Para descer «todos os santos ajudam. O pior é para subir. Leva-se mais de meia hora», desabafa. Já quem vive no Espigão de Cima: «tudo bem». Arrisca-se mesmo a dizer que «vive-se no paraíso».
Onze casais e uma criança
Já no Espigão de Baixo, vivem 11 casais. «Muita gente que ali tem casa, acabou por emigrar por não querer carregar, todos os dias, com as compras às costas», explica-nos. Este senhor lamenta que a estrada ainda não tenha chegado a esta zona, até porque os terrenos são melhores para cultivar do que os de cá de cima. Por enquanto, o isolamento ainda é muito para aquela população que tem apenas uma criança na zona.
José Câmara, outro senhor que, entretanto, entra na conversa, diz que o sítio do Espigão precisa de poços «para "entrancar" a água».
Há também um contentor de lixo, sem tampa, perto de residências, «que deixa um fedor desgraçado. Já fomos à Câmara, mas ainda não resolveram».
Serafina Freitas diz que as vendas do campo «também estão lixadas»
Serafina Freitas diz que as mercearias do campo «também estão lixadas». As grandes superfícies começam também a chegar às zonas rurais, sendo que os que ali vivem só usam as vendas para «desenrascar qualquer falta ou para fiado».
«Até mesmo os que não têm carro próprio, fazem as compras lá em baixo (Ribeira Brava) e vêm "atacados" na camioneta».
Para além disso, nem no Espigão, zona conhecida pela sua pacatez e isolamento, se «a ladroagem anda calma».
Um destes dias, os amigos do alheio entraram no estabelecimento desta senhora, «levaram navalhas, whisky e meias de mulher», desabafa. A Polícia foi chamada ao local e aconselhou a reforçar as portas.
Até hoje, «ainda não descobri quem são os malandros», lamenta. |
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