Jornal da Madeira
 
Domingo, 1 de Agosto de 2010
Jornal da Madeira Carta ao Director Jornal da Madeira
 

 

Jornal da Madeira / Opinião / Data de Publicação: 2009-06-07
AIRES GAMEIRO
Acessibilidade ao álcool e ciência
 


Duas notícias com tomadas de posição divergentes e contraditórias me tocaram. É o problema de sempre: Bastará só o conhecimento para os indivíduos evitarem os danos para si e para os outros?
Vamos aos factos. O relatório Rand, (organização credível), sobre a acessibilidade do álcool na União Europeia, concluía: quanto mais acessível é o álcool mais se bebe e mais danos causa. Dizia que os jovens são muito sensíveis, frágeis, perante os baixos preços das bebidas. Em 18 países da União Europeia o acesso ficou duas vezes mais fácil por os preços terem descido. O consumo aumentou e os danos também. Demonstra-se, diz o relatório, que basta um 1% de aumento no consumo para haver 0,86% mais acidentes mortais rodoviários; mais 0,61% de ferimentos na estrada; e mais 0,37% cirroses crónicas do fígado.
Será que o acesso ao álcool depende só de baixar os preços? Claro que não. E aqui entra outra notícia e os comentários que pessoas da “ciência” lhe fizeram. Alguns são surpreendentes.
Na queima das fitas em Coimbra (só em Coimbra mas há mais cidades com festas de universitários) foram 87 os estudantes universitários que foram levados ao hospital em coma alcoólico em dois dias de farra e excessos. Então mas os estudantes com doze anos de estudos secundários e mais alguns de universidade não têm conhecimentos dos danos do álcool? As notícias diziam que houve ainda muitos ferimentos por agressões, golpes, indisposições, uns 74 casos. E os comentários da gente técnica e da ciência dos hospitais também lá vinham: que são números normais, que é sempre assim, que não surpreende. Os conhecimentos não funcionam? Nem por isso.
Mais preocupados pareceram os da Comissão: “tentar mudar a imagem dos excessos é uma guerra que dura há anos”. Pena não terem conseguido, e parece que bem se esforçam…Até oferecem alternativas de refrescos baratos. Os estudantes não se autocontrolam, dizem. É isso “o problema é do controlo das pessoas”, do descontrolo. E acrescentam: que “ não é da oferta de bebidas” alcoólicas. Isto é “ciência” a potes. Pois até oferecem bebidas não alcoólicas a 0,50 cêntimos. Mas as bebidas alcoólicas (cervejas suponho), essas, são dadas gratuitamente. De graça! Que comissão mais tentadora! Dá álcool e vende refrescos.
Reparem. O acesso facilitado às bebidas! Se os preços baixam aumenta o consumo e os danos. E se há cerveja de graça, aumentam quantas vezes? Uma centena de comas!
E quem é que as oferece? As notícias não o diziam mas os que bebem sabem e vêem as marcas ali à sua frente. E a promoção é publicidade? A indústria até vem dizer a alguns ingénuos que não. E os “cientistas” do país até acabam por concordar e justificar. E também concordam que fazer investigação na área dos danos do álcool e do que funciona e do que não funciona em políticas do álcool não vale a pena. Uma centena ou duas de pessoas com danos do álcool para os que bebem e para os outros, dizem, é um problema individual. Só individual?
E quem paga o pessoal das urgências de dois ou três hospitais referenciados nas notícias? E os danos causados a terceiros? Os impostos de todos. A C. Vermelha está lá para tratar os embriagados. E os que eles agridem? Quando chegará o alerta de que os danos para terceiros não ficam muito atrás dos danos dos fumadores passivos? Alguns infelizmente ainda consideram que sejam problemas menores. Não se pode ignorar que o álcool anda misturado com muitas violências diárias a crianças, jovens, mulheres e homens.
A vontade para o bem é fraca e os valores dos outros não a motivam internamente; precisa de apoios externos dissuasores. E a sociedade só quer dar “conhecimentos açucarados”. E isso não basta; não motivam: crianças; jovens imaturos; adultos egocêntricos…
Os gregos sabiam: não bastam conhecimentos para viver bem e ser bom; S. Paulo, nas cartas, diz que faz o mal que não quer e não faz o bem que quer; Santo Agostinho, nas Confissões, fala das duas vontades sempre em desacordo no desejar e no fazer o bem; e Freud filosofou o princípio do prazer e da realidade sem acertar muito no como os equilibrar em crianças e adultos. Parece que os cientistas das dependências da droga, do álcool, do sexo, das pedofilías, do jogo, do roubo, dos ídolos, esqueceram essa sabedoria e por vezes pouco mais dizem que banalidades “cienticistas”.
Um olhar atento para os danos do álcool a terceiros poderia mudar o paradigma das políticas do álcool e da redução dos seus danos. O prazer descontrolado de uns à custa da violência e danos infligidos aos outros tem que ser enfrentado com medidas limitativas dissuasoras a favor de valores mais altos. Medidas que sejam um apoio ou controlo externo do comportamento incontrolado dos agressores.

AIRES GAMEIRO
(In Boletim Conta Comigo da SAAP Abril-Junho 2009


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