Jornal da Madeira
 
Domingo, 1 de Agosto de 2010
Jornal da Madeira Carta ao Director Jornal da Madeira
 

 

Jornal da Madeira / Opinião / Data de Publicação: 2009-09-20


ÉLVIO HENRIQUES DE JESUS
Novos enfermeiros
 


No passado dia onze de Setembro, teve lugar no Funchal mais uma cerimónia de vinculação à profissão, durante a qual os jovens licenciados em enfermagem prestaram o seu juramento profissional e lhes foi entregue a cédula profissional que os autoriza ao exercício da profissão, no âmbito das competências científicas, técnicas e humanas que o respectivo título (o de Enfermeiro) confere - “a prestação de cuidados gerais de enfermagem ao indivíduo, à família e à comunidade, nos três níveis de prevenção” (cf. Artigos 7ºs do Dec. Lei nº 104/98 e Lei nº111/2009).
Se para muitos destes jovens, o caminho para aqui chegarem não terá sido muito fácil, o que agora iniciam, embora diferente, também requererá muita motivação, empenho, dedicação e espírito altruísta. A responsabilidade inerente à profissão que escolheram e que a partir de agora estão autorizados a exercer, é muito elevada. Os princípios e os valores consagrados na parte do Código Deontológico daquela legislação e que lhe são inerentes, e aos quais todos nós, enquanto enfermeiros estamos vinculados, exigem a reflexão e o aprofundamento contínuos na prática quotidiana.
Os contextos onde irão exercer a profissão são por natureza exigentes, dinâmicos e muito complexos, quer sejam eles os domicílios, comunidades, lares ou hospitais. Os problemas apresentados pelos utentes, famílias ou grupos, e que são da esfera própria de intervenção do enfermeiro, geralmente não são lineares, bem definidos ou estáveis, requerendo muitas vezes, pouco tempo para a tomada de decisão.
Embora sabendo tal não constituir novidade para muitos destes jovens, gostaria no entanto de os, uma vez mais, aconselhar a continuação da aprendizagem, pois, o profissionalismo, a autonomia e a consequente responsabilidade que nos é exigida, não se compadecem com incipientes investimentos na autoformação e na vontade de aprender ao longo da vida.
Um outro aspecto que gostaria de salientar tem a ver com uma das nossas maiores preocupações - o trabalho de equipa. Um verdadeiro trabalho de equipa da qual todos são parte integrante e activa da mesma, tendo como centro e foco de atenção, o cidadão.
Os utentes, as famílias, os grupos ou comunidades merecem e têm direito a um cuidado seguro e de qualidade para o qual o trabalho de equipa se torna indispensável. Trabalho este que só poderá ser cabalmente exercido por profissionais (todos) bem formados, felizes, justos, competentes, sabedores, responsáveis, autónomos, que pensem globalmente e ajam no contexto da sua especificidade profissional. E que estejam verdadeiramente interessados no serviço público que prestam - os cuidados de saúde.
Os profissionais, por seu lado, também merecem e têm direito a condições favorecedoras do seu desenvolvimento profissional, assim como a ambientes pró-activos, modernos, adequados, transparentes, justos, responsabilizantes, seguros, estimulantes e respeitadores da dignidade individual de todos, sem excepção. Só assim se poderão criar as condições indispensáveis para que os utentes usufruam dos tais níveis de cuidados seguros e de qualidade que todos almejamos.
Mas para tal, o exemplo deverá também provir da hierarquia. Os enfermeiros, incluindo os gestores de nível operacional, responsáveis aos níveis dos serviços, departamentos ou outras unidades prestadoras de cuidados, não poderão continuar a ser desrespeitados, desautorizados, injustiçados, depreciados nas suas responsabilidades e competências por parte de gestores de outras áreas profissionais. Tal como não devem continuar a assistir à passividade de alguns dos seus pares, tão lestos que se mostram a ignorar e por vezes até mesmo corroborar com tais impropérios. Os utentes e os enfermeiros merecem, têm direito e exigem outras atitudes e comportamentos, dignos, justos e responsáveis.
Uma outra preocupação gostaríamos de ainda referir. A da habitual demora na abertura de concursos para os novos profissionais. Compreendemos algumas das razões, mas apelamos a uma maior celeridade nos processos, de modo a que, no mais breve curto de espaço de tempo possível, possamos ver todos estes enfermeiros a iniciar os seus percursos profissionais, a melhor se prepararem para a resposta em cuidados de enfermagem de que a nossa população tanto necessita.
Como bastas vezes o temos referido, persiste a falta enfermeiros em praticamente todos os nossos serviços de saúde. Alguns colegas chegam a trabalhar, em alguns períodos, cerca de oitenta horas semanais. E isto constitui um risco muito grande, para os utentes e para os profissionais. Os colegas que recentemente prestaram o seu juramento profissional poderão ajudar na minimização deste fenómeno mas, para tal, deverão rapidamente iniciar as suas funções, pois só mais tarde, após um considerável período de exercício profissional devidamente acompanhado, estarão em condições de substituir integramente os colegas com maior conhecimento e experiência profissional.
Antes de finalizar, uma especial referência aos cuidados de saúde primários gostaríamos de efectuar. Até porque é nossa convicção de que da sua melhor ou pior adequação dependerá o funcionamento, a acessibilidade e a sustentabilidade dos serviços hospitalares. Apesar da falta de profissionais, tanto médicos como enfermeiros nestes contextos, temos dificuldade em compreender a inexistência, pelo menos do nosso conhecimento, de um plano de curto ou médio prazo, o qual garanta a cada família o seu enfermeiro e o seu médico. Pelo menos, numa fase intermédia, um ou outro destes profissionais, e que condições para a complementaridade funcional entre ambos sejam efectivamente criadas. O que não podemos continuar a aceitar é a persistente tentativa de alguns, invocando em vão o trabalho de equipa de saúde, de progressivamente concentrar ambos estes profissionais no mesmo grupo de utentes (leia-se lista do médico, independentemente da confinação da área geodemográfica), deixando ainda mais a descoberto as necessidades dos muitos que ainda possuem praticamente nada.
Igualmente não podemos continuar a assistir à insistente tentativa de desorganização do trabalho de saúde e de enfermagem familiar de proximidade, tão importante que é para a identificação das determinantes e para promoção da saúde individual ou da comunidade, como para a segurança e qualidade das respostas e satisfação dos utentes e familiares. Uma rápida e firme intervenção ao mais alto nível é requerida. Pois não podemos passivamente aceitar, por exemplo, a elevada, e por vezes fatal, taxa de reinternamentos hospitalares por dificuldades no cumprimento do plano de cuidados e regime terapêutico, sobretudo nos grupos de pessoas de idade mais avançada, dependentes ou portadoras de doença crónica. A implementação imediata de, pelos menos, uma visita de um enfermeiro do Centro de Saúde, preferencialmente o de família, nas primeiras 24 horas após o regresso a casa destas pessoas, uma vez internadas, deverá ser assegurada, tal como o fizeram os países nórdicos há mais de quarenta anos para com todas as crianças. Uma intervenção que julgamos urgente, importante, necessária e justificada, ainda que considerado apenas o ponto de vista da sustentabilidade financeira!
Em suma, um modo diferente de organizar as respostas às necessidades em cuidados de saúde, menos hospitalocêntrico e menos dispendioso para os utentes, evitando que sejam forçados a recorrer ao honeroso, fragmentado e por vezes inseguro sector privado da saúde. É um imperativo de natureza humana, de saúde, económica e social.

Enfermeiro



Artigo de Opinião de : Élvio Henriques de Jesus

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