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Domingo, 1 de Agosto de 2010
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Jornal da Madeira / Opinião / Data de Publicação: 2009-10-04


ÉLVIO HENRIQUES DE JESUS
“Inverno demográfico”
 


A propósito do recentemente celebrado Dia Mundial do Idoso, dia 1 de Outubro, julgamos oportuno tecer algumas considerações sobre a crescente problemática das pessoas mais idosas, particularmente no que aos aspectos da saúde se referem, as quais decorrem daquilo a que recentemente se passou também a designar de “inverno demográfico”.
A expressão “inverno demográfico” foi utilizada, talvez pela primeira vez, em 2008 num relatório apresentado ao Parlamento Europeu pelo Instituto de Política Familiar, relacionando-o com a preocupação do rápido envelhecimento da população na União Europeia.
De facto, todos nós sabemos ou já ouvimos falar acerca do preocupante e crescente fenómeno da inversão da pirâmide demográfica, a qual revela, em muitos países ou localidades, um progressivo “estreitamento” na sua base (resultante do decréscimo de nascimentos) e um alargamento na parte superior, decorrente, sobretudo, do aumento da longevidade e consequente diminuição da mortalidade da população.
Como aqui já o referimos, o aumento da esperança de vida constitui uma conquista positiva na capacidade de prevenção e intervenção na doença, e na promoção de mais elevados níveis de saúde das pessoas. Porém, quando acompanhada por uma significativa redução no número de nascimentos, poderá reverte-se numa situação que começa a ser, nalguns casos, problemática.
Embora em Portugal o fenómeno do denominado “inverno demográfico” não tenha atingido, ainda, as proporções de outros países europeus, o certo é que nele também as respostas de saúde e de apoio social, sobretudo às populações mais idosas, dependentes ou vulneráveis, não se verificam, igualmente, comparáveis.
Como sabemos, à medida que as pessoas se vão tornando mais idosas, a sua vulnerabilidade e dependência paulatinamente também aumentam, passando estas a necessitar de maior apoio familiar e social. A partir do momento ou nas situações em que o sistema familiar de apoio, também, ele mesmo, influenciado pelo fenómeno do “inverno demográfico”, passa a não possuir capacidade para autocuidar-se, os sistemas de saúde e de apoio social deverão, de modo justo, eficiente, efectivo e integrado, entrar em funcionamento.
E aqui poderíamos retomar a questão da crescente necessidade de articulação entre os diferentes sectores, com particular destaque para os da saúde e social. De facto, as pessoas mais idosas, porque mais vulneráveis, tendem a ficar mais doentes, dependentes e vulneráveis, e assim sucessivamente, num mórbido e muitas vezes letal ciclo vicioso, que urge reverter.
Além de que, não devemos esquecer que o que mais caracteriza a problemática de saúde dos idosos é, sobretudo, a existência das denominadas patologias múltiplas e co-morbilidades (de natureza tanto física como mental), a dependência acumulada e progressiva (tanto física, como psíquica e social), envolvendo um conjunto alargado de prestadores, formais e informais, cuja adequada intervenção exige um efectivo trabalho em equipa multiprofissional e interdisciplinar, na proximidade dos locais onde as pessoas vivem e convivem (utentes) ou trabalham (cuidadores).
Estranhamos, por isso, as aparentes e potencialmente nefastas tentativas de alteração na organização das respostas em saúde a estes e a outros grupos populacionais, as quais, se não adequada e atempadamente revertidas, irão reforçar a tendência para uma intervenção mais individualista, desintegrada e de utilitária subalternidade entre profissionais, tão características das ineficientes e inefectivas mono-respostas a presumíveis simples problemas de saúde ou sociais. Tudo isto em detrimento duma desejável acção multiprofissional integrada e continuada, em que todos se organizam em torno do verdadeiro e principal destinatário da intervenção, seja ele indivíduo, família, grupo ou comunidade, e em que todos se esforçam por pensar globalmente e agir localmente, no quadro das suas especificidades e competências profissionais, como requerido para a maioria do problemas de saúde e sociais, que habitualmente se verificam muito complexos e diversificados.
Carecem, assim, de maior atenção algumas (aparentemente ingénuas) declarações, comportamentos e atitudes de intervenientes na saúde, a diferentes níveis, ao retomarem o pernicioso discurso (e, em alguns casos, até mesmo a praxis) de impedirem a proximidade, equidade e individualidade nas respostas, a gestão, a formação, a investigação e até mesmo a reflexão conjunta sobre os casos e as práticas clínicas quotidianas, designadamente, entre médicos e enfermeiros, tal como há décadas preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), ainda que contrárias à Lei, à Deontologia e às Boas Práticas de ambas estas auto-reguladas profissões!

Enfermeiro



Artigo de Opinião de : Élvio Henriques de Jesus

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