Jornal da Madeira
 
Domingo, 1 de Agosto de 2010
Jornal da Madeira Carta ao Director Jornal da Madeira
 

 

Jornal da Madeira / Opinião / Data de Publicação: 2010-02-10


R. MORNA NASCIMENTO
Carta aberta ao Dr. Marques de Freitas
 
Os ex-combatentes não aceitam os termos, vergonha e escondido; deram a cara ao apelo da Pátria; são, por direito, Senhores Combatentes. Como justamente afirma - toda a gente tem direito ao seu bom nome.


Reconheço no dr. Marques Freitas o Cidadão vertical, de conduta e trato exemplares, o ex-Combatente com provas dadas, o Magistrado, digno Procurador, um Militante da justiça, da verdade e do respeito humano, que se obriga às palavras claras, precisas e concisas.
Meses idos, vários ex-combatentes ligados à ideia do Monumento ao Combatente Madeirense do Ultramar, expressaram-me a sua estranheza, à qual me juntaria, em relação às suas afirmações na rádio, no programa Cidadania, onde faz dupla com o dr. Raimundo Quintal. Só há pouco tempo me chegou às mãos a gravação, da qual destacarei: “… há que dar oportunidade a que a gente diga qualquer coisa…, segundo estou informado…, procurar esclarecer o que se passou…, deixar a justiça mal vista …, toda a gente tem direito ao bom nome e quando se ofende, …, ou se deve fazer prova disso ou se está a difamar a pessoa; … eu estive em África, em Moçambique mais de dois anos, numa zona de guerra. E estudava, fui chamado pelo serviço militar. Não fugi. Fui cumprir o meu dever. Outros patriotas da caneta…, muito patriotas, mas foram para a chamada guerra do ar condicionado. Esconderam-se, a coberto de padrinhos. Não fui desses. Estive lá. Vivi a guerra, fui ferido duas vezes em combate, em Moeda… o 25 de Abril foi a libertação... quando eu vejo alguns indivíduos contestarem o 25 de Abril, que não tiveram a hombridade de dar a cara, se eram patriotas ao ponto de quererem defender as Colónias, fossem lá. Eu fui lá por dever patriótico… Houve gente que morreu em África… Há um caso particular, na minha terra na R. Brava, houve um Alferes, salvo erro, o primeiro Alf. mil. que morreu em África. Nunca lhe fizeram justiça. Morreu em Angola. O José Manuel Pais, está sepultado na R. Brava. Nunca ninguém fez justiça. Até hoje está ignorado. Porquê? Talvez por razões politicas… Mas os patriotas cá da terra, acho que fizeram um Monumento ao Combatente Madeirense. Os combatentes na altura, não foram combatentes por serem madeirenses. Foram combatentes por serem portugueses da Madeira… e fizeram um monumento lá para o matagal da Nazaré, anteontem passei lá, estavam a limpar as ervas à pressa, escondido. Parece que têm vergonha daquilo. Têm vergonha os que não foram lá, que ficaram com o peso na consciência de não terem respondido àquilo que era um apelo da Pátria. Contra esses senhores, senhores é o nome que eu dou, acho que me merecem um solene desprezo agora como patriotas, porque nunca o foram e na altura própria não foram capazes de assumir isso…”
A rádio tornou públicas as suas declarações. Conhecedor de toda a história do nosso Monumento, obrigo-me a procurar esclarecê-lo das imprecisões, naquilo que julga estar informado. Os meus 78 anos poder-me-ão permitir esquecimentos, mas nunca omitir ou falsear os factos e eis-me a não deixar a justiça mal vista e a repor a verdade dos factos.
Em Nov75, apresentou-se no BII 19-Funchal um grupo de ex-combatentes oriundos das tropas especiais e de quadricula, que havia tido comigo reuniões visando a sua convocação ao serviço. Em pleno PREC (processo revolucionário em curso), o batalhão carecia de mais gente experiente e determinada para normalizar a sua disciplina e operacionalidade. De volta à vida civil e organizado pelo Jorge Gomes, presidente da Deleg. da Madeira da Associação de Comandos, juntavam-se nos 25 de Novembro. Vezes fui convidado.
O escultor Veloza, em conversas comigo, havia manifestado desejo de conceber uma estátua ao Combatente do Ultramar. Passei a ideia ao Jorge, o qual em contacto com a Associação Nacional de Comandos foi informado de que desconheciam haver no País qualquer iniciativa do género, prontificando-se a Associação a dar o seu apoio. No encontro de 25Nov86 amadureceu-se a ideia e, face à onda de aviltamento a grassar no País na tentativa de esquecer aqueles que, num Dever Patriótico, combateram nos Teatros de Operações Ultramarinos (TO), decidimo-nos pelo termo combatente madeirense, o qual atestava que um grupo de madeirenses, sem complexos, condenava o desdém do País ao sacrifício e valentia das gerações de jovens, entre 1954/1975. Definidas as razões do Monumento e o conceito de Combatente Madeirense, o J. Gomes lançou uma campanha de recolha de fundos, a qual seria subscrita por alguns bancos, seguradoras, empresas, combatentes, particulares e pelo GR que disponibilizaria, ainda, o local para vir a implantar o Monumento, justificando: considerando que o sacrifício de gerações deve ser recordado e enaltecido e que durante décadas, de entre os combatentes mortos, foram madeirenses que souberam servir a Pátria com dignidade, lealdade, sacrifício e orgulho nacional.
Aprovado pelo grupo o ante-projecto do Monumento, em 25Nov87 o escultor apresentaria em conferência de imprensa a maquete. O projecto incluía, sob a estátua, uma Capela na qual seriam fixadas, no interior, placas com o nome dos tombados nos TO. Defendeu que o Monumento, local de recolhimento e meditação, ficaria fora das vistas e dos ruídos. Escolhido em 1988 um terreno nas serras do Arieiro, zona de treino das tropas, seria depois abandonado, prevendo-se vandalismos. Em 1989 difundiu-se o 1º Comunicado – Razões do Monumento e a divulgação das Comissões, executiva, honra e fiscal. Entretanto, a estátua já encomendada chegaria ao Funchal, ficando resguardada vários anos, por falta de verbas. Em 1996 a Delegação de Comandos deixou de poder dar apoio à campanha, constituindo-se uma Comissão Organizadora, com apoio logístico da Delegação da CVP. O GR ofereceu novos locais no Funchal para implantação do Monumento e o escultor demarcou-o num baldio na Nazaré, já destinado à CMF para jardim. O vereador da CMF, dr Raimundo Quintal, ciente da concepção do artista, orientou com empenho a preparação das terras e a sua arborização. A construtora AFA aceitaria a obra com pagamento em diferido, entregando-a em 1996. A mata, com o tempo, adensou-se e isolou o local do Monumento que virou covil de drogados, marginais e vândalos. A solicitação nossa, a CMF procedeu ao desbaste da vegetação e a EEM iluminou o local. A inauguração foi sendo adiada por falta de verbas, contratempos e dificuldades na elaboração definitiva da lista dos mortos, madeirenses ou incorporados, nos TO. Após 19 anos de peripécias e descrença dalguns, em 26 Abril 2003 o Monumento ao Combatente Madeirense no Ultramar seria inaugurado. Cerimónia digna, em ambiente de exaltação patriótica, rodeada de muita emoção e calor humano. Participou uma multidão de ex-combatentes e familiares, além do Ministro da Defesa Nacional, Autoridades regionais, civis, religiosas e militares, Associações Nacionais de Combatentes convidadas e a Comunicação Social. Uma obra de ex-combatentes, um marco histórico, regional e nacional, evocativo da memória de camaradas a quem a Pátria exigiu o sacrifício pleno. Embora demorada, a ideia não sofreu pressões externas, não se hipotecou a correntes políticas, a sociedades ou outros. Apenas o GR, face ao atraso, em 1996 pediu explicações sobre o destino dos dinheiros públicos concedidos. As contas, elaboradas por um combatente técnico de contas, foram fiscalizadas, estando rigorosamente em ordem.
O saudoso alf. José Manuel Azeredo Pais, excelente rapaz, conheci-o estudante e cerebral ala esquerdo do clube Pátria. Cruzar-me-ia com ele em Luanda de férias para a Madeira. Seria impedido pela polícia, em Lisboa, de seguir para o Funchal, acto condenável desbloqueado pela intervenção dum parente influente. Do combatente alf. Pais, dir-me-ia mais tarde o saudoso Luís Moreira, Oficial de Operações do BCav 1883 – era o melhor alf. do nosso Batalhão; todo o batalhão o chorou; um invulgar condutor de homens e bravo combatente. O Louvor do Ministro do Exército (ME) reza: – exemplo firme perene de extrema coragem e total espírito de sacrifício, devendo os serviços que prestou à Região M. Angola, ser com toda a justiça, considerados como extraordinários, relevantes e distintos. Foi condecorado, a título póstumo, com a Medalha de Prata de Serviços Distintos com palma. No funeral, na R. Brava, a família dispensou as Honras Militares e a CMR Brava, em reunião de 04Abr68, lavrou em Acta – a memória dos Heróis que abnegadamente se sacrificaram pela Pátria deve ser exaltada e perpetuada, atribuindo-lhe o nome numa rua da Vila. O nosso alf. Pais, não foi, nem será ignorado por quantos com ele tiveram o privilégio de conviver. Deixemos a memória do Herói José Manuel em Paz.
O 1º alf. mil. madeirense a morrer em África, foi o Francisco Abreu, em 1961 nos Dembos-Angola, sendo-lhe dado o nome duma rua no Funchal.
Voltando ao programa Cidadania, não gostamos de certos termos e expressões do dr. M. Freitas. Afirma que há que dar oportunidade a que a gente diga qualquer coisa. Pois saiba que todos os Patriotas cá da terra e não só, envolvidos na Campanha do Monumento, à excepção do escultor Veloza que fez tropa em Santarém, foram operacionais no Ultramar. Citarei, uns poucos, nomes: – A. Catanho, medalha de Valor Militar c/ palma e Cruz de Guerra 1ª classe colectiva, Angola; Rui Catanho, “Para”, medalha de Cobre Serviços Distintos, Guiné; Gil Nunes, Cruz Guerra 1ª classe, Angola; Gonçalves Rodrigues, Cruz Guerra 4ª classe, Angola; ten. médico Faria Nunes, Louvor, Moeda-Moçambique; Rui Carita, Cruz Guerra 3ªclasse, Moçambique; João Carlos, Cruz Guerra 1ª classe colectiva, Angola; Jorge Gomes, “Comando”, Moçambique; Miguel Costa, “Comando”, Angola; Rosendo Sardinha, Louvor do ME, Angola; Rui Nepomuceno, Louvor, Angola; Ranito, piloto heli, Moçambique; Miguel Pita, “Fuso”, Niassa-Moçambique; José Luís, “Fuso”, Guiné; Joel Silva, Louvor colectivo, Guiné; Costa Neves – “Ranger” Guiné; Acácio Pestana, BCav 928, Leste-Angola; Luís Gabriel, Guiné; saudoso José Carlos, Angola…
Que saiba, só o signatário esteve duas vezes no QG Luanda (ar condicionado), em fins de Comissão militar. Servi na Índia, Moçambique, Angola (duas vezes) e Guiné, em unidades operacionais. A minha Folha de Assentos, quando no QG refere: a actividade operacional desenvolvida na ZIN (zona intervenção norte); o apoio às unidades em operações com deslocações, a miude, às unidades…
Os ex-combatentes não aceitam os termos, vergonha e escondido; deram a cara ao apelo da Pátria; são, por direito, Senhores Combatentes. Como justamente afirma - toda a gente tem direito ao seu bom nome. Os combatentes que estiveram em África, Índia, Macau e Timor e, durante anos se empenharam directa ou indirectamente para edificar, inaugurar e agora, fazer por perpetuar o Monumento ao Combatente Madeirense no Ultramar, fizeram jus ao seu bom nome e repudiam insinuações de menor valor, quanto ao seu sentido do Dever Patriótico.

P.S. A C. Organizadora faz questão de oferecer-lhe o “Caderno da Inauguração e a Medalha Comemorativa”. Favor telefonar para 291.741.115.



Artigo de Opinião de : Ramiro M. do Nascimento

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