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FRANCISCO GOMES
As quatro apostas de Rangel
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A realização de um congresso extraordinário, que decorre este fim-de-semana, na cidade de Mafra, e a gradual aproximação das eleições internas de 26 de Março indicam que o PSD está numa fase de mudança, a qual assinala o início de um novo ciclo de liderança. Nesse sentido, nas próximas duas semanas, os candidatos à chefia do partido tentarão convencer os militantes das qualidades que os destacam e que fazem deles a pessoa ideal para assumir o comando do PSD.
É difícil sobrevalorizar a importância das próximas duas semanas para o futuro do maior partido da oposição, dados os grandes desafios que o mesmo hoje enfrenta, quer ao nível externo, quer ao nível interno. Ao nível externo, os eleitores, na sua maioria, não têm reconhecido no PSD uma alternativa ao governo socialista, e, apesar do país estar embebido numa crise financeira gravíssima e numa tensão social quase explosiva, o partido não tem conseguido utilizar a irresponsabilidade política do PS em seu benefício. Ao nível interno, o PSD muitas vezes parece se ter tornado num poço de intrigas, dominado pelo aparelho e por meia dúzia de baronetes e baronesas que se julgam imunes a qualquer sentido de dever e de missão. Um partido assim não oferece garantias de nada e não é alternativa a coisa nenhuma.
Sendo assim, é fundamental que os candidatos à liderança do partido consigam, nas próximas duas semanas, definir linhas ideológicas claras e rumos de acção concretos que constituam alternativas críveis e ganhadoras ao espectáculo penoso que o PSD insiste em ser nos dias de hoje. Tal iniciativa requer que os candidatos transmitam uma mensagem sólida de seriedade e de renovação nas diversas regiões do país, mas sempre cientes do facto de que essa mensagem tem de ser adaptada às características das regiões e sensível às idiossincrasias das populações dessas zonas.
Do ponto de vista da análise política, será particularmente interessante de seguir a campanha política de Paulo Rangel na RAM. Ao contrário de Pedro Passos Coelho, que surge na corrida à liderança com um currículo dúbio de ligações a empresas e a processos judiciais de carácter duvidoso, assim como com uma postura condenável em questões de autonomia, e de José Pedro Aguiar Branco, cuja opinião quanto às autonomias, assim como a sensibilidade relativamente aos legítimos direitos e interesses do Povo Madeirense, ainda não foi adequadamente esclarecida, Paulo Rangel desfruta de um currículo de defesa do ideal autonómico, o qual remonta ao início da sua carreira profissional. No entanto, este aspecto, só por si, não garante o sucesso daquele candidato nos círculos eleitorais da Região. Pelo contrário, na minha opinião, existem quatro facetas que a equipa de Rangel na Madeira deverá tentar explorar de modo a promover o candidato junto do eleitorado, nomeadamente:
1) Paulo Rangel: O Líder
Quer no contexto do PSD, quer no contexto do país, Rangel tem de se apresentar como a alternativa que, a nível partidário, irá devolver ao PSD o sentido estratégico e o cariz social-democrático que outrora o definiu, e que, a nível nacional, irá restituir à governação a respeitabilidade que esta administração socialista há muito perdeu. Para alcançar estes propósitos, Rangel terá de conquistar uma base interna de apoio que seja suficientemente ampla de modo a legitimar a revolução ideológica de que o partido está carente e da qual depende a sua viabilidade politica na conjuntura nacional.
2) Paulo Rangel: O Humanista
A projecção de Rangel na política portuguesa deu-se ao lado de Manuela Ferreira Leite, e, justa ou injustamente, algum do eleitorado português ainda associa o candidato à figura da actual líder social-democrata. Sabendo que uma das grandes batalhas de Ferreira Leite (talvez a maior) foi a de ultrapassar o desconhecimento que muitos portugueses tinham do seu lado humano e até humorístico, deve a candidatura de Rangel evitar que a percepção errada que os portugueses tinham do humanismo da antiga Ministra das Finanças transborde para imagem do eurodeputado. Sendo assim, é imperativo dedicar cuidado especial à projecção de Rangel como um candidato próximo das pessoas. Na Madeira, isso implica que o candidato se aproxime dos eleitores, demonstre conforto em contextos sociais quotidianos e devote tempo às causas sociais imediatas, como, por exemplo, o contacto com os afectados pelas intempéries de 20 de Fevereiro, oferecendo-lhes um sentido de esperança e de ajuda política.
3) Rangel: O Europeísta
O extraordinário nível desenvolvimento testemunhado na RAM nas últimas três décadas deveu-se, em parte, à aplicação sensata dos fundos disponibilizados pela União Europeia. O facto de Rangel presentemente ocupar o cargo de eurodeputado confere-lhe, no contexto Regional, uma vantagem estratégica sobre os outros candidatos à chefia social-democrata. Logo, é necessário que a campanha de Rangel enfatize a sua vertente europeísta, retratando-o como uma pessoa cujas ligações à estrutura governativa europeia será benéfica para a Madeira e para o bem-estar das nossas gentes, pelo que interessa assegurar a sua eleição como líder do PSD.
4) Rangel: O Autonomista
Mais do que o progresso infraestrutural ou o desenvolvimento social, a grande bandeira política Regional é a Autonomia, facto comprovado pelas consecutivas vitórias eleitorais do PSD-Madeira, partido que sempre se afirmou como o verdadeiro defensor da causa autonómica. Logo, o sucesso de Rangel no contexto da RAM irá passar pela sua capacidade de se identificar com os símbolos autonómicos. Para o candidato, a maneira ideal de assegurar isso seria através de um apoio expresso do Dr. Alberto João Jardim à sua candidatura. Mas, uma vez que tal é muito pouco provável que aconteça, Rangel terá de demonstrar a sua sensibilidade para com as causas Regionais através de outras formas, como, por exemplo, a defesa de um regime especial de apoios à reconstrução e o reconhecimento público da resposta exemplar do Governo Regional e de toda a população aos danos causados pela violência das chuvas. Estas e outras iniciativas são essenciais para que os eleitores Madeirenses vejam em Rangel alguém credível e solidário para com as gentes da Região.
O Portugal em que vivemos nos dias de hoje é um infeliz e penoso Carnaval no qual o governo socialista recusa abdicar do seu papel como rainha do drama. Viajando de crise em crise, a maior delas mais artificiais que as situações criadas em laboratório, Sócrates & Companhia não conseguem evitar a aura de suspeita e de debilidade que as suas próprias acções geraram. Temos um governo cada vez mais fraco, envolvido em planos obscuros e mergulhado em esquematizações lesivas ao espírito democrático. Infelizmente, temos também um PSD que poucos respeitam e que, por isso mesmo, precisa de refrescar a sua imagem política. É na esperança que essa remodelação seja feita pela mão de um candidato como Rangel, que já deu provas de estar solidário para com a realidade Regional, que este artigo avançou as quatro sugestões acima brevemente discutidas.
franciscogomes@yahoo.com |
Artigo de Opinião de : Francisco Gomes
franciscogomes@yahoo.com
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