Jornal da Madeira
 
Domingo, 1 de Agosto de 2010
Jornal da Madeira Carta ao Director Jornal da Madeira
 

 

Jornal da Madeira / Opinião / Data de Publicação: 2010-03-22


LUÍS FILIPE MALHEIRO
Absurdos
 


Basta ler a imprensa local para perecermos que os socialistas estão a esticar a corda e a propor soluções baseadas no clima de suspeição que marca o seu discurso, sempre que falam em obras públicas. Basta que se fale em obras para que o PS local – o partido do Freeport, da Face Oculta e de outros processos mediáticos, que são espelhos da corrupção política e da ousadia de corruptos, que em Portugal apostam na comprovada impotência da justiça e da sua incapacidade em resolver estas situações como estas em tempo útil – estique logo a corda. Não deixa de ser vergonhoso, e paradoxal, que sejam alguns políticos a tempo parcial desse partido (eventualmente porque, para eles, os negócios estão em primeiro plano das prioridades), independentemente do facto de já terem mostrado que só se sentem realizados quando se comportam como a escumalha mais rafeira à face da terra – políticos que recentemente foram acusados pelo antigo líder do PS local de terem tentado usar abusivamente o partido, por via das pressões e de chantagens, para fins que nada têm a ver com a política, o mesmo partido que ainda não esclareceu publicamente, nem a verdade nem as causas das divergências entre dirigentes, relacionadas com o processo de compra e venda de sedes no Funchal, e que inclusivamente deu origem a processos que correm nos tribunais – que venham apontar o dedo, sem qualquer legitimidade, contra seja quem for, ainda por cima tentando antecipar hipotéticas situações de corrupção à volta da reconstrução da Madeira.
Existem várias formas de abordar este assunto e de exigir seriedade – algo que eu não prescindo nestes processos – e sobre isso já disse o que penso e tinha a dizer. Nessa perspectiva, e dada a estranha insistência do governo socialista da República em obras públicas de grande envergadura, num país absolutamente falido, ou em vias disso, graças também ao descontrolado desbaratar dos recursos financeiros, um país que massacra de novo os cidadãos com medidas que nem a propaganda consegue alindar, seria também plausível que se exigisse uma “comissão independente” para coordenar todo o processo de construção do novo aeroporto de Lisboa, da nova travessia do Tejo e da fase do TGV que não foi anulada porque beneficia Lisboa. Uma comissão que, considerando os casos pendentes nos Tribunais e a impunidade com que a corrupção e os corruptos actuam na política continental, faria mais do que sentido, seria uma exigência.
Obviamente que não se discute a capacidade de apresentação de propostas por parte dos socialistas locais, porque, quer a reboque de outros partidos da oposição, quer por sua própria iniciativa, eles têm naturalmente toda a legitimidade política para fazerem o que entenderem, no quadro da sua actividade política e parlamentar, incluindo a liberdade suspeitarem de quem entenderem. Isso é indiferente. As pessoas olham para aquele grupo e não encontram nenhum motivo de tranquilidade – o próprio PS é o testemunho mais vivo disso, pelos exemplos conhecidos e pelas sistemáticas suspeições em que anda envolvido e das quais já falei – relativamente à garantia de seriedade e de ética. Seria muito fácil, por exemplo, chegar aqui e propor uma comissão independente, envolvendo entidades da União Europeia, e destinada a acompanhar e monitorizar todas as despesas do OE gastas com as grandes obras públicas, quer atendendo às assombrosas verbas que elas envolvem, quer pela estranha insistência na sua realização, quando se penalizam os portugueses com um vergonhoso agravamento dos impostos, e insinuar que o financiamento dos partidos se faz de tantas formas e recorrendo a tantos expedientes. Não seria eticamente correcto da minha parte, pela suspeição generalizada que estaria a levantar.
Chega-se ao ponto de sermos obrigados a ouvir oportunistas, tachista e crápulas, conhecidos por um comportamento rafeiro e por uma doentia atitude de sistemática frustração relativamente a tudo o que envolva o PSD, um indivíduo enxovalhado nas autárquicas de 2005 no Funchal, pelo voto soberano do povo, apesar de ter andado toda a campanha a falar de corrupção e a lançar suspeição sobre os adversários, que “comprou” espaço na televisão para divagar sem contraditório, para assim alimentar um ego que vive de uma vaidade descontrolada que tem origem em factos que não interessam para o caso, um tipo sem escrúpulos que nem sequer teve a coragem de assumir opções políticas, antes saltitando de cais em cais, e encostado à esquerda tal como ontem andou pela direita, mas que afirmou com o maior desplante – já agora, quando é que os meios de comunicação social esclarecem as acusações de João Carlos Gouveia na tal entrevista concedida a um jornal local, já este ano, e que estranhamente foram atiradas para debaixo do tapete? – que o fundamento para a proposta patética que acabam de anunciar residia no facto de que “este flagelo que se abateu sobre a Madeira não pode ser uma bandeira de oportunismo político para o PSD”. O absurdo é que, para além da suspeição ocultada nas entrelinhas da proposta, os socialistas, pelos factos atrás apontados – e que deveriam ter sido esclarecidos (que postura assumiria a comunicação social, por exemplo, se as acusações de Gouveia tivessem sido dirigidas a políticos do PSD madeirense?!) – estão longe de ter a legitimidade moral e a idoneidade política para se disponibilizarem a colaborar num processo de reconstrução “transparente” e “rigoroso”. Realmente a pouca vergonha não tem limites, particularmente quando as pessoas, obsessivamente, perdem a noção do ridículo, dos seus limites, do razoável e da lógica. Entram então pelo esgoto, influenciados pelo desespero e pela frustração invejosa, que originam uma espiral de contradições, de paradoxos, de mentiras e de ocultação de factos que lhes retiram qualquer credibilidade e alimentam a dúvida e a suspeição. Os deputados do PSD tem condições, caso queiram, para despoletar mecanismos parlamentares e regimentais que permitam, por exemplo, apurar a veracidade de acusações que não podem morrer com o tempo, e aquilatar do grau de envolvimento de crápulas que se refugiam impunemente na imunidade para continuarem com as suas negociatas (porque as incompatibilidades são para os “outros”…) e a comportar-se como se nada se tivesse passado, ou como se ninguém tivesse proferido graves acusações que deviam ser esclarecidas. A política precisa de credibilidade e de protagonistas que sejam dignos do respeito. Não de energúmenos.

http://ultraperiferias.blogspot.com



Artigo de Opinião de : Luís Filipe Malheiro

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