Jornal da Madeira
Edição de Domingo, 1 de Agosto de 2010
 
 
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Jornal da Madeira Carta ao Director Jornal da Madeira
 
 
Suplemento / Revista Olhar / 2007-12-08
Duarte Freitas, madeirense no topo, atingiu o máximo que um piloto pode aspirar
Voar um F-16 é melhor do que ganhar o Euromilhões
Depois de termos conhecido, na edição de 24 de Novembro da Olhar, como é o dia-a-dia dos portugueses na Base Aérea de Zokniai, na Lituânia, hoje damos uma volta pelos voos de Duarte Freitas, o único piloto madeirense que até agora comandou um F-16, o caça com que todos os pilotos sonham.
Quando Duarte resolveu que o seu futuro seria vivido a uma força de 9Gs, sabia que tinha pela frente muito sacrifício, dedicação e, sobretudo, a distância que o separa dos pais durante grande parte do ano. Hoje, aos 28 anos, o madeirense sabe que há muito mais para ver de cima do que a travessa e a Laurissilva e tem um percurso feito a velocidades inimagináveis, mas quando aterra e põe os pés no chão, está sempre disponível para estar, como chega a acontecer no Natal, ao lado dos colegas de serviço na Base Aérea de Monte Real, em Leiria. Vamos voar nas asas do sonho do jovem que aos 13 anos se voluntariou para os bombeiros e que duas vezes por ano é literalmente enfiado numa espécie de máquina de lavar em que se simula uma força de gravidade superior à normal em nove vezes. Ninguém disse que esta vida era fácil, mas mesmo que vencesse o Euromilhões, Duarte sabe que só seria mesmo feliz, se pudesse pilotar um F-16…

Não lhe sobra muito tempo para ter vida pessoal, mas tem simpatia de sobra para dar a todos os que o querem conhecer melhor. Afinal, é o madeirense que neste momento trabalha a mais velocidade e quando nos lembramos da frase “o céu é o limite” depressa concluímos que o limite, para o jovem Duarte Freitas, é muito mais do que voar. É uma forma de estar, de viver, desde que aos 13 anos entrou como cadete nos Bombeiros Voluntários Madeirenses, de onde saiu aos 18 para ir para a Força Aérea.
Aos 17 anos, Duarte obteve o “brevet” de Piloto Particular de Aviões (PPA) no primeiro curso dado integralmente pelo Aeroclube da Madeira, tendo voado pela primeira vez como aluno no dia 1 de Junho de 1997, num Piper Cherokee, o CS-AIC. Mas para o seu álbum de memórias ficará, certamente, o dia 10 de Setembro desse mesmo ano, quando foi “largado” — em linguagem técnica é como se chama ao primeiro voo sozinho — a partir do Aeroporto da Madeira. É curioso que entre a meia dúzia que concluiu o curso ministrado pelo Aeroclube, Duarte foi o único que acabou por ingressar na Força Aérea. Há quem “queira ser só piloto, dar umas voltinhas ao Porto Santo”, refere, com o sorriso feliz de quem sabe que há muito mais do que o Mar da Travessa e a Floresta Laurissilva para olhar de cima.
Esse Inverno passou com o “bichinho” a fazê-lo sonhar cada vez mais com os céus e a 17 de Março de 1998, o jovem foi examinado pelo Instituto Nacional de Aviação Civil num voo entre a Madeira e o Porto Santo, obtendo, então, a licença de PPA.
Começava aí a outra página desta história. Aquela em que começou a voar “Chipmunk” na Madeira, depois na Força Aérea, aquela em que foi instrutor de planadores na Academia, tendo sido também piloto de competição deste tipo de aparelhos. Vai falando e desfiando as rotas da sua vida à medida que se recorda dos voos que fez e dos comandos que tomou nas mãos, das terras que viu de cima…


Vida privada sofre
com opção seguida

Quando disse em casa que ia para a Força Aérea, não foi logo anunciando que o seu objectivo seria voar a altas velocidades a bordo de um avião que muitos madeirenses não vão ver de perto. “Foi sempre progressivo: fui voar aviões pequenos, depois maiores, depois aviões de combate... depois o F-16!” Os pais vão se habituando. Os pais, sim, porque para namorada não há tempo. É complicado se dizer a uma pessoa que se tem de ir para uma missão, só tem que ligar para os pais a dizer que vai estar fora por uns tempos e algumas das vezes nem diz exactamente para onde”.
“É muito mais fácil assim”, “é preciso muita dedicação aos F-16”, completa Duarte, que atesta que consegue ver a monotonia nos olhos daqueles com quem cresceu nos Salesianos e que não sabe, ao certo, quantos países conheceu, dizendo apenas que “já andei por aí”, sobretudo na Europa.
Esteve quatro anos a fazer a licenciatura em Ciências Militares e Aeronáuticas, na Academia da Força Aérea, tendo feito vários cursos de sobrevivência.
Acabou o curso em 2003, tendo sido colocado numa das esquadras, onde a raiz continuava a ser a mesma para todos os pilotos. A partir daí, é que começam a desenhar-se as diferenças entre todos, sendo seleccionados por aptidão para as diferentes áreas: aviões de combate, aviões de carga e helicópteros. Aí, mostram-se as características natas dos pilotos, sendo como que conduzidos para a área onde têm melhores aptidões. O combate foi, naturalmente, a pista escolhida para descolar para estes voos.
Na altura, três dos colegas foram directamente para os F-16, tendo Duarte ido para os Alfajet, para fazer ataques ao solo, no fundo, aquilo que se verifica, hoje, nos teatros de guerra como o Iraque.
Esteve dezoito meses nessa Esquadra, a dos “301-Jaguares”, entretanto convertida para F-16. Quando a esquadra acabou, foi colocado em Monte Real, tendo viajado para os Estados Unidos, onde o Texas o recebeu durante dois meses e o Arizona outros oito. Em pleno deserto, numa base aérea onde não faltava nada, nem mesmo dezenas de F-16. Uma das muitas que existem espalhadas por todo o país.

Voar um F-16
aos 57 anos

Portugal tem, actualmente, quase quatro dezenas de aparelhos desse modelo, sedeados em Monte Real. Não estão todos operacionais, porque alguns deles estão a passar por uma fase de conversão, para o que de melhor existe em termos de operacionalidade para aqueles aparelhos. Num mundo à parte, que acaba por não ser acessível a todos os que por ali andam, há uma elite à volta da qual se mexem centenas de outros operacionais, porque é preciso haver uma cadeia que permita que tudo funcione na perfeição.
Duarte voltou para Monte Real depois dos meses nos Estados Unidos, mas nega que tenha sido como um regresso “à creche”, dada a dimensão das coisas. “Estamos ao nível deles, em tudo o que fazemos”, em Portugal existem todos os equipamentos que os americanos estão a usar neste momento. “Não se pense que os portugueses fazem má figura, antes pelo contrário, os portugueses foram os melhores classificados entre os pilotos de todos os países”. E depois, quando confrontado com a pergunta, responde, com uma gargalhada quase inocente: “eu estava nesse curso”.
Hoje, depois de ter entrado na esquadra, não estabelece metas para a sua vida profissional, até porque não há limites quando se voa nos F-16. Duarte conta que nos Estados Unidos, por exemplo, conviveu com pilotos que com 57 anos ainda comandam F-16, até porque fazem exames frequentemente.

Um braço com 45 kgs...
na máquina de lavar

Na sua idade, fazem-se testes completos anuais e um intermédio, de seis em seis meses, “só para ver se está tudo bem”. Se estiverem cansados, ou desmaiarem durante um voo, muito provavelmente por culpa das forças “Gs”, os pilotos daqueles caças têm de se submeter de novo a um exame geral. Nunca desmaiou, mas reconhece que “há que estar preparado para tudo quando se voa num F-16”. Para os leigos, como nós, falar de um “G” é falar da força da gravidade tal como se sente no dia-a-dia. E se se falar em 9Gs, significa que o peso é multiplicado por nove. E se se disser que num avião deste tipo, pode atingir-se essa velocidade em dois segundos, depressa se consegue aferir a preparação que um homem com setenta quilos tem de ter para passar a “pesar” 630 quilos.
Não se consegue, contudo, “fingir” isso num simulador normal, é preciso ir a um especial, para os F-16, que parece uma máquina de lavar, chamado centrífuga, onde se atinge os 9 “Gs”. Se não se conseguir superar essa fase, pode abandonar-se a ideia de ser piloto deste tipo de caças. Podem, inclusivamente, rebentar vasos sanguíneos, existindo casos de pilotos que não conseguem superar esta fase. E mesmo os que passam o teste, se desmaiarem num voo, têm de o repetir. Mas não se tem a noção de que se está a rodar, porque se está literalmente “enfiado” numa caixa, explica Duarte, que conta que “há quem fique com a cadeira marcada nas costas” devido à força que se exerce. Para passar esta fase, é preciso ter uma excelente preparação física, porque “se se estiver só sentado, normalmente, o desmaio acontece em dois segundos”.
Muito treino físico e ginásio, com programas específicos, três a quatro vezes por semana, são parte da receita para tudo correr bem quando o “escritório” fica para além das nuvens. O pescoço é uma das partes mais cuidadas, porque é necessário, quando se está num cockpit de um F-16, olhar para todos os lados. E se pensarmos que o podemos “virar” a uma força de 7 Gs, depressa concluímos a pressão exercida nos músculos e os cuidados a ter para não sofrer uma lesão grave, porque o pescoço não está feito para suportar forças dessa natureza sem preparação.

Quando as avarias
acontecem no ar

Duarte não sabe qual o melhor voo que fez. Gostou de muitos, mas o primeiro, quando se voa sozinho, quando o instrutor nos vê em terra, quando vemos o Funchal onde crescemos de cima, é indescritível. Mas no brilho dos olhos do jovem piloto fica também o primeiro voo num avião militar, o primeiro voo de caça... “há muitos voos especiais”, admite. Mesmo aqueles em que os momentos especiais são feitos de avarias e imprevistos e é preciso tomar uma decisão. As máquinas falham, conforme reconhece o piloto madeirense. Os carros falham. Mas por isso mesmo “temos uma manutenção mais rigorosa e procedimentos mais rigorosos do que quando vamos andar de carro”. Nunca teve problemas que o fizessem ejectar-se, mas realça que já teve pequenos precalços lá em cima que é preciso resolver na hora.
Quando voam, fazem-no sempre em parelhas, pelo menos. E durante mais de uma hora. Normalmente, em Portugal, treina-se tiro no Campo de Alcochete, mas há outras missões a fazer.
Sente-se realizado, a fazer o que sempre quis, a voar o avião que sempre quis voar, “mas já não se pode pedir muito mais do que isto”. E mesmo que ganhasse o Euromilhões, “podia não estar a voar um F-16”.

Em serviço no Natal
com quem folga

O Natal, já o sabe, vai passar em Monte Real. Entra de serviço a 24 de Dezembro, durante 24 horas. Mas sabe também que há muitas pessoas que vivem perto da base que fazem questão de passar a Consoada com quem está de serviço. “Fazemos questão de estar perto de quem está a trabalhar, vamos ter uns com os outros, a verdade é que passamos mais tempo juntos do que com as próprias famílias. Hoje são eles, amanhã somos nós. Eu cheguei a passar a noite de Natal na Base em Beja e fiz questão de ficar durante todo o dia seguinte a fazer companhia a outro colega que ali estava e depois disso é que fui para a Madeira”.
A Madeira cresceu e estará sempre presente, nem que seja para esperar o dia em que aterrará de F-16 no Aeroporto de onde se lançou para esta “aventura”. A Madeira é a terra que o viu crescer e que o fez sonhar com imagens como o “Top Gun” que o fascinou nos ecrãs de cinema. Duarte sabe, como quem vê de cima, que a Madeira é a sua terra, mas nunca será o seu escritório. Porque, como dizia Richard Bach em relação a Fernão Capelo Gaivota, “vê mais longe a gaivota que voa mais alto”. A Duarte, foram dadas as asas para voar. Primeiro, as do sonho, depois as de um dos caças mais cobiçados do mundo. E hoje, mais do que as cores de Portugal na bandeira do avião, há um sotaque inconfundível a falar nesses céus, nessas bases, nessa vida de sonho... que começou no Aeroclube da Madeira.
 

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